Em vida, Sergio Leone não teve o reconhecimento como realizador que a sua obra justificava e o último trabalho, "Era uma vez na América" (1984), só mais tarde foi compreendido. Herdeiro directo de uma família ligada ao cinema - a mãe, Edvige Valcarenghi, cujo nome artístico era Bice Walerian, foi actriz de filmes mudos; o pai, Vincenzo Leone, mas conhecido como Roberto Roberti, foi realizador e esteve impedido de trabalhar durante o período do fascismo italiano -, Leone depressa revelou atracção pelo grande ecrã. E, apesar dos estudos em Direito, lá teve oportunidade de ser assistente de realização de Vittorio de Sica, por exemplo, no famoso "Ladrão de Bicicletas" (1948). Iria fazê-lo em mais algumas películas até ganhar a oportunidade de realizar com "O Colosso de Rodes" (1960). As marcas de cinema de autor e a definição de um estilo chegariam com o chamado "western spaghetti", primeiro através da "trilogia dos dólares", tendo Clint Eastwood como figura central; mais tarde, no inesquecível "Era uma vez no Oeste" (1968), história de vingança e duelo de vida ou morte que o tempo ajuda a alimentar.
Não é um caso de vida ou de morte, mas o tempo tem servido para alimentar a rivalidade entre Rafael Nadal e Novak Djokovic. No ano passado, 6-0 em finais para o sérvio e a liderança do ranking mundial arrebatada ao espanhol. Este ano, no Open da Austrália, 'Nole' aumentou para 7-0, na terceira final seguida de um torneio do Grand Slam frente ao espanhol, relembrando as 5 horas e 53 minutos de duração o carácter épico da decisão do US Open quando os dois jogadores partilharam o protagonismo de um autêntico duelo.
É para o duelo entre Harmonica (Charles Bronson) e Frank (Henry Fonda) que convergem as acções do épico "C'era una volta il West", o título original do filme de Leone, no qual a espantosa beleza de Jill McBain (Claudia Cardinale) ilumina a história e a banda sonora de Ennio Morricone, companheiro de escola do realizador, conquista o direito a ser parte importante de cada personagem. Aqui sobressaem marcas do realizador que nunca pretendeu copiar o estilo do western norte-americano, mas adaptá-lo às suas ideias cinematográficas - grandes planos de rostos que se tornam verdadeiras paisagens, atenções concentradas em olhos que conferem espessura emocional a cada personagem, cenários que traduzem a sua admiração pelo surrealismo, o fascínio e o receio por aquilo que a América inspira, campo ideal para a Psicologia.
Cada episódio de confronto entre Nadal e Djokovic poderia servir como caso de estudo de Psicologia, tal o domínio que o sérvio passou a exercer sobre a mente do rival, mais do que em relação à condição física. É por aí que Nadal tem começado a perder, não obstante as adaptações que fizeram da final na Austrália um jogo muito mais equilibrado - é por ainda não ter percebido como funciona a preparação mental de Djokovic que Nadal permanece em desvantagem ao contrário do que já conseguiu face a Federer.
No filme de Leone, tão justamente admirado por cinéfilos de todo o Mundo (entre os quais estão realizadores como Tarantino ou Robert Rodríguez), Harmonica passa a maior parte do tempo a jogar com a mente do pérfido Frank - outra habilidade de Leone, transformar o tradicional herói Henry Fonda num assassino desprezível -, antecipando o duelo final. A destreza há-de ser apenas o caminho mais curto para a superioridade moral, mas até se chegar aí existe um mundo de emoções em desequilíbrio.
No ténis não é de superioridade moral que se trata. Desengane-se, porém, quem pensar que é só um jogo ou apenas uma questão de ganhar muito dinheiro em pouco tempo. A destreza há-de ser só o caminho mais curto para a glória, mas até se chegar aí existe um mundo de emoções em precário equilíbrio. Basta ver as reacções de Djokovic e Nadal para o perceber.
PS: Após 55 jogos sem derrotas, o FC Porto perdeu em Barcelos com o Gil Vicente, equipa que tem realizado exibições muito interessantes com os grandes. Sendo certas as razões de queixa da arbitragem (pelo menos um penalty por marcar por falta sobre Defour e uma grande penalidade que valeu o 0-2 e nasceu de um fora-de-jogo por assinalar), Vítor Pereira fez bem quando começou por salientar que a primeira parte dos campeões nacionais foi "horrível". Ganhar passaria, desde logo, por uma forma diferente de encarar o jogo no começo. As explicações para isso é que são mais difíceis de apresentar e o futuro do treinador também fica no olho do furacão.