Arnold Schwarzenegger tem múltiplas facetas: tão depressa é o culturista cheio de títulos nascido em Thal, na Áustria, como o jovem que chegou aos Estados Unidos em 1968, com apenas 21 anos, desbravando caminho até ao cinema; pode ser o actor especializado em filmes de acção com destaque para "O Exterminador Implacável" que teve duas sequelas ou aquele que brincou com a sua imagem tradicional em películas como "Gémeos" ou "Um Polícia no Jardim-escola", ambos sob a direcção de Ivan Reitman; pode ser o investidor em restaurantes e no imobiliário; e também se assume na vertente política como republicano e pela entrada no poderoso clã Kennedy, espécie de família real norte-americana, através do casamento com Maria Shriver (sobrinha do antigo presidente John Fitzgerald Kennedy), de quem se divorciou em Maio do ano passado, e, durante oito anos, como governador do Estado da Califórnia. Defensores e detractores têm muito por onde escolher, incluindo "True Lies" (1994) ou "A Verdade da Mentira" em que Schwarzenegger contracena com Jamie Lee Curtis - ele é Harry Tasker, agente secreto; ela é a sua mulher e está convencida de que a profissão do marido se resume à rotina de uma empresa de computadores.
Todos pensávamos que a Liga Zon Sagres é uma competição profissional com regras bem definidas, regulamentos, normas, prémios e punições num regime de igualdade para todos. Mas o futebol português nunca acaba de surpreender, umas vezes pela positiva, a maior parte, contudo, pela negativa. A situação que os jogadores da União de Leiria estão a viver é surrealista como incrível foi o que se passou no domingo em pleno jogo da 28ª jornada: oito atletas com cinco meses de salários em atraso a sofrer em campo contra 11 (depois de ter sido apresentado um pedido de rescisão por 16 elementos do plantel leiriense), interferindo na classificação final e deixando diversas questões que, pelos vistos, não têm resposta. Como é possível suceder algo deste género com profissionais sem que haja castigo para quem não está a cumprir com as suas obrigações? De que forma pode falar-se em verdade desportiva quando existe uma situação de evidente desigualdade entre os cumpridores e os outros? Se um clube que cumpre for despromovido em campo e outro incumpridor conseguir manter-se, é justo que seja esse o resultado final?
No filme de James Cameron, um grupo de terroristas atravessa-se no caminho do casal Schwarzenegger/Curtis e as inúmeras peripécias vão deixar perplexa e maravilhada a mulher-do-aborrecido-especialista-em-com
João Bartolomeu, líder demissionário da SAD leiriense, é um dos mais antigos dirigentes desportivos em actividade e nem vale a pena classificar a forma como se tem movimentado no mundo do futebol. Mas, para que este campeonato tenha um final feliz, só justifica mesmo que alguém lhe diga a frase de Tasker: "You're fired!" Essa seria a melhor forma de trazer verdade a uma mentira que o presidente da Académica deixou bem evidente no final do jogo com o Sporting em Alvalade.
Samuel Leroy Jackson, a quem muitos conhecem com o nome do meio apenas abreviado para L., não é o actor mais apreciado do Mundo, nem o mais reconhecido, nem o mais premiado. Não é sequer o mais emblemático de uma geração, mesmo que tenha multiplicado as participações em filmes desde que Quentin Tarantino o transformou numa vedeta com "Pulp Fiction" (1994). De repente, Jackson passou a ser requisitado para inúmeras interpretações, com relevo para películas de acção e papéis em que ser "cool" era condição indiscutível. E ganhou um lugar no Guinness pelas receitas que os seus filmes obtiveram: 7,4 mil milhões de dólares, o registo que lhe garante o título de actor com maior grau de rendibilidade.
José Mourinho acumula títulos, salários, prémios, distinções e polémicas. Para cada apreciador do estilo, seja dentro ou fora dos relvados, existirá pelo menos outro que considera detestável algum elemento da sua figura: há os que encontram defeitos na personalidade, nas características das suas equipas, no modo como aborda jogos e adversários, no discurso que consideram inadequado, até mesmo na forma de vestir, nas campanhas publicitárias em que participa ou, quem sabe, nos produtos que utiliza para se barbear - quando se trata de desequilibrar virtudes com defeitos, qualquer argumento é usado. Depois do triunfo em Camp Nou frente ao Barcelona, algo que não sucedia desde 2007/08, o objectivo de conquista do título espanhol ficou muito mais próximo, o Real Madrid já superou o recorde de golos na Liga (vai em 109), Cristiano Ronaldo fez o mesmo (soma 42) e foi determinante, a presença na final da Liga dos Campeões, onde pode reencontrar o Barça, fica resolvida na próxima quarta-feira. Em suma: se Pep Guardiola tem assegurado, até aqui, hegemonia nos duelos directos entre as equipas, este resultado deixa os pratos da balança menos desequilibrados e, sem diminuir as qualidades do técnico catalão, pelo menos devolve José Mourinho à sua condição de general que conhece bem os labirintos onde se movimenta.
O papel de Jules Winnfield, que Jackson desempenha de forma perfeita em "Pulp Fiction", foi escrito por Tarantino tendo o actor como destinatário. "Foi espectacular. Senti-me ao mesmo tempo agradecido e arrogante", admitiu. Era já o 30º filme, mas só a partir daí se gerou uma onda de entusiasmo à sua volta que o catapultou para mais de uma centena de papéis desde então, tantas vezes com argumentos propostos como reedição dessa emblemática presença no ecrã.
Mourinho tem moldado as equipas à sua imagem e, por norma, caso não se imponha no primeiro ano de contrato, ganha no segundo. O título espanhol não está no bolso, mas ficou mais perto e o próprio Guardiola recuperou a ideia de que ser campeão será uma espécie de "Pep Fiction", no sentido em que fica cada vez mais distante da realidade. Ganhando de acordo com os seus pressupostos, ou seja, sem abdicar da identidade da equipa, nem de qualquer jogador, por muito que seja criticado - o caso de Fábio Coentrão é bem o exemplo disso -, o técnico português reafirma que as convicções podem dar continuidade ou resultar num estilo/escola, conforme sucede neste Barça de inspiração holandesa, mas também inserir-se num plano de médio prazo que deixa marcas históricas num clube cujo perfil tem sido sempre muito mais o de programas mediáticos e menos o de abrir horizontes para o sucesso. Quem sabe se a renovação até 2014, entretanto anunciada, não servirá para inverter esta tendência histórica, tornando o Real Madrid numa versão de carácter distinto, ainda que mais concentrado no futuro.
O uruguaio Horacio Quiroga teve uma existência cheia de peripécias e muito marcada pelo suicídio: do padrasto, da mulher, dos três filhos e do próprio, depois de ter conhecimento que sofria de cancro em 1937. Por entre os incidentes, Quiroga destacou-se como contista e num desses contos está a origem do filme brasileiro "Inesquecível" (2006): dois amigos de infância, Diego e Guilherme, apaixonam-se pela mesma mulher (Laura). É com Diego que Laura se casa, mas este descobre a ligação que existiu com Guilherme e está a realizar um filme sobre o triângulo amoroso quando morre. A película acaba por estrear-se no Brasil, Guilherme e Laura reencontram-se e não conseguem escapar à perturbação pelo modo tão intímo como a história é passada ao grande ecrã.
José Mourinho e Pep Guardiola conhecem-se há muitos anos, o português foi adjunto de Bobby Robson no Barcelona onde Pep era um médio de excepção. Partilham a paixão por futebol e querem ambos os títulos espanhol e europeu, conquistados pelo catalão na temporada passada. A época espectacular que Cristiano Ronaldo e Messi vêm conseguindo dá ideia de que realizam um filme inesquecível em que cada um, à vez, vai ocupando o lugar de protagonista pelo número invulgar de golos - à 32ª jornada, Messi soma 38, o português tem só menos um, portanto vem aí novo recorde na Liga espanhola (na época passada, Ronaldo marcou 41, embora lhe fossem creditados apenas 40, porque num deles, à Real Sociedad, em San Sebastian, a bola bateu nas costas de Pepe...) e, somando todas as competições, o Barça vai em 152 golos (!). Ao mesmo tempo, depois de ter ganho 10 pontos de vantagem, o Real Madrid está, após o empate de hoje com o Valência, num jogo espectacular a que só faltaram golos, a escassos quatro de diferença, tendo muitos obstáculos para superar, entre os quais a visita a Camp Nou. Isto significa que, em Espanha como sucede com Portugal, Itália, França e Alemanha, o título não está resolvido - Real e Barça, Porto e Benfica, Juventus e Milan, Montpellier e PSG, Dortmund e Bayern lutam palmo a palmo pelo sucesso, embora em etapas diferentes dos respectivos campeonatos.
Amigos e rivais, Diego e Guilherme construíram carreiras - um no cinema, o outro como repórter fotográfico - com Laura como referência comum e marcante nas suas vidas. Quando tudo parecia decidido, Diego desaparece do lado de Laura por causa de um acidente, mesmo que isso não signifique abandonar a sua vida. Há voltas e reviravoltas, o desfecho da história não é previsível por muito que se alimente de algumas coincidências.
Não há coincidências que justifiquem os troféus ganhos por Mourinho em Portugal, Inglaterra, Itália, Espanha e na UEFA. A principal coincidência nas conquistas de Guardiola é que o rasto vitorioso surge com o Barcelona como origem. Rivais que têm feito trajectos vitoriosos de formas diferentes, Mourinho e Pep vivem no caminho um do outro. Esta época, voltas e reviravoltas afastam a ideia de que o final seja previsível e será sempre histórico: o Real Madrid campeão garantiria ao português o tão desejado título noutro dos principais campeonatos europeus; o Barça vencedor resultaria da estreia do técnico de Setúbal a ver desperdiçada uma vantagem de dez pontos. De uma forma ou de outra, a palavra mais adequada é... Inesquecível!
"Nothing but the truth" é um filme de 2008, tem um israelita como realizador (Rod Lurie) e uma história em que, conforme indica o próprio nome, a verdade e só a verdade interessa. Há uma jornalista, Rachel Armstrong (Kate Beckinsale), que revela numa edição do seu jornal a identidade de Erica van Doren (Vera Farmiga) como agente da CIA, depois de descobrir que vive sob disfarce. É o suficiente para ter a justiça atrás de si, ordenando-lhe que revele a fonte da informação, sob pena de passar um tempo indeterminado na cadeia. Matt Dillon (Patton Dubois) é o obstinado procurador, capaz de exercer as maiores pressões para que Rachel confesse. E, nesse caminho, muitos são os episódios que os rivais da história vão percorrer até ao imprevisível desfecho.
Depois do Benfica-FC Porto é, acima de tudo, aos adeptos que interessa a verdade e só a verdade. Os portistas foram melhores nos 20 minutos iniciais? Sem dúvida, tudo fizeram em campo para o conseguir, jogando inclusive com os fantasmas recentes dos benfiquistas (cuja época passada teve suficientes marcas de derrota com a equipa de André Villas-Boas para as recordações não desaparecerem tão depressa). O Benfica reagiu bem? É verdade, demorou a libertar-se dos tais vestígios psicológicos, mas foi capaz de criar desequilíbrios e marcar, mesmo que os campeões nacionais nunca deixassem de preocupar o guarda-redes Artur. Jesus ainda pôde rejubilar com a vantagem na segunda parte, mas perdeu Aimar, Garay (ambos por lesão) e Emerson (expulso), enquanto Vítor Pereira agia a partir do banco, apostava em James Rodríguez para o 2-2 e, nos minutos finais, já com Kléber em campo, ganhava com o cabeceamento de Maicon. O central estava fora-de-jogo? Certo. Mas centrar na arbitragem a explicação para a vitória portista é iludir parte substancial da verdade. E vale a pena sublinhar que, para lá dos erros cometidos ao longo do percurso (a derrota em Barcelos é só o mais eloquente dos exemplos), Vítor Pereira mostrou argúcia e ousadia no clássico da Luz.
Para quem gosta de estatísticas e não se esquece de que, em nove clássicos arbitrados por Pedro Proença, o Benfica nunca venceu, há outro número interessante, neste caso a envolver Jesus: em dez jogos com o FC Porto perdeu seis. Falta competência ao técnico benfiquista ou os portistas são mais hábeis? Nem uma coisa nem outra. A seu favor, basta lembrar que Jorge Jesus devolveu um estilo ao futebol da Luz; transformou Di María e Fábio Coentrão em jogadores excepcionais; recuperou Aimar e Saviola como dupla que se inspira mutuamente; assegurou dimensão europeia a um jogador desperdiçado em Madrid (Javi García); enquadrou um médio que é, em simultâneo, operário e puro-sangue (Ramires), catapultando-o para Londres. Uma das diferenças entre os melhores treinadores e os outros é que, pela sua intervenção, o que é só potencial torna-se marca principal de alguns jogadores.
No outro lado da balança, contudo, há perguntas a fazer esta temporada (e a colocação de David Luiz a lateral-esquerdo, por exemplo, foi um erro repetido de Liverpool para o Dragão, em 2010, que será para sempre lembrado, assim como o passo em falso com a contratação do guardião Roberto) e ficam aqui algumas de carácter futebolístico-social: para quê arruinar Capdevila e ficar sem alternativa a Emerson quando este - e isso já há muito se percebeu - não serve sequer para alternativa ao espanhol? De que adiantou recuperar Saviola para o votar ao esquecimento? Por que razão "desapareceram" Gaitán e Bruno César?
Com inúmeras armas à sua disposição, o procurador Patton Dubois cerca Rachel Armstrong, leva-a a tribunal e coloca-a na prisão, apesar dos esforços do advogado, do director do jornal, do marido e do carinho do filho. É muito mais simples ceder, revelar a fonte, voltar para casa e pensar que amanhã é um novo dia. Contudo, há algo de mais importante e colectivo do que Rachel para defender e a jornalista sabe-o, "every step of the way".
Com mais argumentos do que na época passada à disposição, Jesus levou a equipa a rubricar excelentes exibições, pressionou os campeões nacionais e chegou a dispor de cinco pontos de vantagem. Nessa fase, ao contrário do que fazia num passado não muito distante, distribuiu elogios e méritos pelos jogadores, parecendo mais próximo do que nunca do plantel. Mas, depois de quatro jogos seguidos sem vencer e oito pontos perdidos em três jornadas consecutivas, talvez isso não tenha passado de mera ilusão, apesar do apoio próximo que lhe dedica a estrutura benfiquista.
Vítor Pereira podia ter desistido e demitia-se (ou era demitido), até porque a animosidade dos adeptos criou condições para esse desfecho, mas teve ao seu lado os dirigentes, a equipa foi reforçada e nem a goleada sofrida do Manchester City o afastou do objectivo. Pode até nem ser campeão nacional, pois a nove jornadas do fim ainda há muitos obstáculos a ultrapassar, mas tem defendido algo de mais importante e colectivo. E esse é um mérito que lhe será sempre reconhecido.
"Buongiorno, principessa!" A frase é dita inúmeras vezes por Guido a Dora (até está escrita num bolo antes de se beijarem debaixo da mesa) no filme "A Vida é bela" (1997), realizado e protagonizado por Roberto Benigni, uma história de comédia e drama que não teve acolhimento benigno generalizado à primeira, porque abordar temas como o Holocausto, a II Guerra Mundial e campos de concentração com sentido de humor se adivinhava muito delicado. Da tragédia resultou um filme de elevada sensibilidade, inteligência e beleza, uma notável história de amor que ganha novos contornos pela forma como uma família se comporta num cenário de destruição e tristeza, pelo modo como um pai judeu age para manter o filho numa bolha de surrealismo perante a monstruosidade do nazismo.
Em 1993, Kalusha Bwalya jogava nos holandeses do PSV Eindhoven e não seguiu viagem no voo que a selecção da Zâmbia usou para chegar ao Senegal. A coincidência permitiu-lhe escapar da tragédia, pois o avião despenhou-se no mar do Gabão e os 18 internacionais morreram. Bwalya resistiu ao cenário de destruição e tristeza, deixou de jogar nos clubes em 2000, mas permaneceu na selecção que jurara reconstruir até 2004, tendo inclusive sido jogador-seleccionador até 2006. Depois foi vice-presidente e, de 2008 para cá, é o presidente da Federação, cargos em que foi capaz de dar os passos certos para evitar que os principais talentos ficassem dispersos por clubes europeus de segunda linha. A história foi recordada pelo diário catalão "El Mundo Deportivo", a propósito do histórico triunfo zambiano frente à Costa do Marfim na final da Taça das Nações Africanas, no passado domingo. Lembra a publicação que, no fundo, Bwalya agiu como Matt Busby após o desastre de Munique (em Fevereiro de 1958, a queda do aparelho vitimou oito jogadores do Manchester United e, entre os sobreviventes que seguiam no voo, estavam Bobby Charlton e Bill Foulkes, por exemplo): da tragédia construiu a esperança.
Poucos acreditaram que Benigni teria sucesso com a sua obra: era visto como um excêntrico, meio louco, palhaço levado pouco a sério. Na própria cerimónia de entrega dos Óscares (1999, pois o filme só foi lançado nos Estados Unidos um ano antes) que consagraram "La vitta è bella" como melhor filme estrangeiro (e o próprio como melhor actor, além do prémio para a banda sonora) foi o espelho dessa imagem falsa: doido de alegria, passou sobre cadeiras antes de chegar ao palco aos pulos, abraçar e beijar Sophia Loren que gritara "Roberto!" para lhe entregar uma estatueta enquanto soava a música principal da película. Na sua saudável loucura, por entre um discurso num inglês confuso e ziguezagueante, dedicou o prémio a Nicoletta Braschi (a actriz que personifica Dora) e reafirmou uma realidade: o riso é uma das mais belas criações da Humanidade.
O projecto de Bwalya foi avaliado com muitas dúvidas e considerou-se quase impossível que produzisse bons resultados. Porém, conforme nos ensinou em tempo próprio a voz de Xanana Gusmão num outro contexto, "resistir é vencer". No caso de Bwalya, resistir e vencer tornaram-se verbos de conjugação sucessiva. E a vida voltou a ser bela.
PS: Em Maio, quando foi apresentado no Estádio José Alvalade, Domingos Paciência era a trave-mestra de um projecto. Agora, Sá Pinto é apresentado como sucessor porque os dirigentes do Sporting lhe detectam as qualidades certas para liderar a equipa. Vale a pena fazer algum comentário sobre isto? Vale: se as convicções têm a consistência da gelatina, percebe-se melhor por que razão tantos treinadores têm passado pelo clube sem sucesso. Não é que lhes faltem qualidades - há é demasiadas areias movediças à sua volta.
Em vida, Sergio Leone não teve o reconhecimento como realizador que a sua obra justificava e o último trabalho, "Era uma vez na América" (1984), só mais tarde foi compreendido. Herdeiro directo de uma família ligada ao cinema - a mãe, Edvige Valcarenghi, cujo nome artístico era Bice Walerian, foi actriz de filmes mudos; o pai, Vincenzo Leone, mas conhecido como Roberto Roberti, foi realizador e esteve impedido de trabalhar durante o período do fascismo italiano -, Leone depressa revelou atracção pelo grande ecrã. E, apesar dos estudos em Direito, lá teve oportunidade de ser assistente de realização de Vittorio de Sica, por exemplo, no famoso "Ladrão de Bicicletas" (1948). Iria fazê-lo em mais algumas películas até ganhar a oportunidade de realizar com "O Colosso de Rodes" (1960). As marcas de cinema de autor e a definição de um estilo chegariam com o chamado "western spaghetti", primeiro através da "trilogia dos dólares", tendo Clint Eastwood como figura central; mais tarde, no inesquecível "Era uma vez no Oeste" (1968), história de vingança e duelo de vida ou morte que o tempo ajuda a alimentar.
Não é um caso de vida ou de morte, mas o tempo tem servido para alimentar a rivalidade entre Rafael Nadal e Novak Djokovic. No ano passado, 6-0 em finais para o sérvio e a liderança do ranking mundial arrebatada ao espanhol. Este ano, no Open da Austrália, 'Nole' aumentou para 7-0, na terceira final seguida de um torneio do Grand Slam frente ao espanhol, relembrando as 5 horas e 53 minutos de duração o carácter épico da decisão do US Open quando os dois jogadores partilharam o protagonismo de um autêntico duelo.
É para o duelo entre Harmonica (Charles Bronson) e Frank (Henry Fonda) que convergem as acções do épico "C'era una volta il West", o título original do filme de Leone, no qual a espantosa beleza de Jill McBain (Claudia Cardinale) ilumina a história e a banda sonora de Ennio Morricone, companheiro de escola do realizador, conquista o direito a ser parte importante de cada personagem. Aqui sobressaem marcas do realizador que nunca pretendeu copiar o estilo do western norte-americano, mas adaptá-lo às suas ideias cinematográficas - grandes planos de rostos que se tornam verdadeiras paisagens, atenções concentradas em olhos que conferem espessura emocional a cada personagem, cenários que traduzem a sua admiração pelo surrealismo, o fascínio e o receio por aquilo que a América inspira, campo ideal para a Psicologia.
Cada episódio de confronto entre Nadal e Djokovic poderia servir como caso de estudo de Psicologia, tal o domínio que o sérvio passou a exercer sobre a mente do rival, mais do que em relação à condição física. É por aí que Nadal tem começado a perder, não obstante as adaptações que fizeram da final na Austrália um jogo muito mais equilibrado - é por ainda não ter percebido como funciona a preparação mental de Djokovic que Nadal permanece em desvantagem ao contrário do que já conseguiu face a Federer.
No filme de Leone, tão justamente admirado por cinéfilos de todo o Mundo (entre os quais estão realizadores como Tarantino ou Robert Rodríguez), Harmonica passa a maior parte do tempo a jogar com a mente do pérfido Frank - outra habilidade de Leone, transformar o tradicional herói Henry Fonda num assassino desprezível -, antecipando o duelo final. A destreza há-de ser apenas o caminho mais curto para a superioridade moral, mas até se chegar aí existe um mundo de emoções em desequilíbrio.
No ténis não é de superioridade moral que se trata. Desengane-se, porém, quem pensar que é só um jogo ou apenas uma questão de ganhar muito dinheiro em pouco tempo. A destreza há-de ser só o caminho mais curto para a glória, mas até se chegar aí existe um mundo de emoções em precário equilíbrio. Basta ver as reacções de Djokovic e Nadal para o perceber.
PS: Após 55 jogos sem derrotas, o FC Porto perdeu em Barcelos com o Gil Vicente, equipa que tem realizado exibições muito interessantes com os grandes. Sendo certas as razões de queixa da arbitragem (pelo menos um penalty por marcar por falta sobre Defour e uma grande penalidade que valeu o 0-2 e nasceu de um fora-de-jogo por assinalar), Vítor Pereira fez bem quando começou por salientar que a primeira parte dos campeões nacionais foi "horrível". Ganhar passaria, desde logo, por uma forma diferente de encarar o jogo no começo. As explicações para isso é que são mais difíceis de apresentar e o futuro do treinador também fica no olho do furacão.
"O Regresso do Rei" finalizou, em 2003, a saga que Peter Jackson realizou em três actos, filmados de forma simultânea ao longo de quase ano e meio, sobre a obra "O Senhor dos Anéis" de Tolkien. A trilogia acumulou receitas (mais de três mil milhões de dólares pelo Mundo fora) e prémios (17 Oscares, 11 dos quais premiando apenas o último episódio do épico). A história é bem conhecida, há quem goste e quem deteste, o nome da parte final corresponde precisamente ao que está inscrito no título: depois de tantos episódios de batalhas, perigos e duelos contra o Mal, o Bem ganha, enfim, espaço para a sua afirmação.
A carga dramática em redor do retorno de Thierry Henry ao Arsenal não é tão intensa como sucede com o filme de Jackson, mas de certeza houve adeptos que não evitaram as lágrimas face à emoção de rever, ali bem perto, um símbolo espectacular do futebol moderno em acção. "Titi", como carinhosamente o tratam os mais próximos, é a síntese perfeita da paixão feita futebol - inteligência, execução perfeita, ética de trabalho, sentido estético e um profundo respeito por cada espectador. No fundo e logo à superfície, um artista no sentido mais livre e democrático que a palavra pode ter (coloque-se "cidadão" onde está "espectador" e talvez muitos políticos gostassem de reunir qualidades semelhantes, adaptadas ao respectivo sector).
Depois do conflito com a produtora New Line acerca da distribuição de receitas, o neozelandês Peter Jackson voltou à Terra Média e vem aí, no Natal deste ano, a prequela "The Hobbit - an unexpected journey", repartida por dois episódios. Anunciam-se novas emoções e momentos magníficos para adultos e crianças cuja principal semelhança seja a ausência de limites para sonhar, nem que seja apenas durante o tempo do filme.
Com Henry também é assim - sem limites para sonhar, pelo menos durante a hora e meia que dura um jogo de futebol. Quantas vezes temos a oportunidade de nos cruzar com uma lenda muito antes de se concretizar o seu destino e nem sequer damos por isso? Pelo contrário, quantas vezes pensamos saber, antes dos próprios protagonistas, se vão ganhar, apaixonar-se ou perder? Há quem diga que é preciso viver tempo suficiente para passar por alguma destas situações.
Pois bem, comigo já aconteceu e até faz lembrar a famosa frase do começo de "A Guerra das Estrelas", filme do ano em que nasceu Henry (1977): "A long time ago, in a galaxy far, far away..." Não foi há tanto tempo como na saga de George Lucas, mas até parece que foi numa galáxia muito distante, tão distante que Henry ainda era Sub-15 e cruzou-se com a selecção portuguesa em França, no Torneio de Montaigu. Então, era apenas um longilíneo avançado que mostrava talento, velocidade e uma habilidade natural para acertar em cheio nas redes. Hoje, é a lenda que tem uma estátua à porta do estádio do Arsenal, clube de que é melhor marcador e ao qual voltou, emprestado pelos norte-americanos do New York Red Bulls, como se 2007, o seu último de oito anos na capital inglesa, tivesse sido ontem, mostrando-se decisivo ao obter o golo do apuramento na Taça frente ao Leeds. Pelo que tem dado ao futebol, Henry merece sempre ouvir em qualquer parte do Mundo: "Bienvenu, monsieur Thierry Henry!" Se não lho disse, Arsène Wenger ainda vai muito a tempo. Os adeptos, esses, nunca se cansam de saudá-lo. Têm a mais simples e honesta das sabedorias: a do povo.
PS: Com o mesmo entusiasmo que justifica o regresso de Henry a Londres, saúdem-se os triunfos de Lionel Messi e Pep Guardiola como os melhores do Mundo em 2011, pois é da mais elementar justiça reconhecer esse estatuto ao génio argentino e ao virtuoso treinador, dupla que, no Barcelona, muito tem feito para tornar o futebol atraente para cada vez mais milhões de espectadores. Mas, porque este é também o momento ideal, lamente-se a falta de critério da eleição do ano passado quando, em Janeiro, o holandês Wesley Sneijder (Inter) já tudo fizera para merecer a distinção e, ainda assim, o galardão manteve-se nas mãos de Messi. No dia em que uma injustiça deste género fosse cometida com o sul-americano, nem quero imaginar o que seria dito e escrito por esse Mundo fora.
Este é o último filme de 2011, aquele em que só há lugar para protagonistas do que de melhor se viu em Desporto, estabelecendo-se mesmo uma ponte para os próximos tempos, pois muitos deles vão deixar marcas também em 2012.
André Villas-Boas
A tentação de perguntar "como seria se" atravessa a História e o futebol também vive dessa dúvida aplicada a vários momentos e figuras: como seria se Eusébio jogasse pelo Sporting e não pelo Benfica? Como seria se Jardel não vestisse a camisola portista, mas a benfiquista? Como seria se Mourinho, após a saída do Benfica, concretizasse a entrada em Alvalade e não seguisse, mais tarde, rumo ao FC Porto? A resposta a questões deste género é a mesma: não há. Com André Villas-Boas, uma pergunta semelhante fica para sempre: como seria se o Sporting de José Eduardo Bettencourt e não o FC Porto de Pinto da Costa o contratasse? A histórica colecção de troféus e a exuberância de um plantel luxuoso são o legado que o antigo adjunto de Mourinho deixou no Dragão e no futebol português. Depois de tantos meses de bom futebol, classe e domínio absoluto de (quase) todas as competições, percebeu-se logo à sua saída rumo ao Chelsea que qualquer sucessor teria na época passada o seu pior inimigo. O tempo encarregou-se de traduzir isso dentro de campo - Vítor Pereira, que até começou bem nas Supertaças, chegando a colocar o poderoso Barcelona em xeque no Mónaco, ainda mal pode falar em estabilidade. O pior para Villas-Boas é que, em Londres, o desafio de Abramovich também não corre como esperava. Entre a paciência de dois líderes joga-se a possibilidade de mudança.
Domingos Paciência
Se lutar pelo título até à última jornada no Sporting de Braga não era suficiente, o que poderia ser melhor? Eliminar favoritos para chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões? E que tal jogar a primeira final europeia 100% portuguesa ainda pelo clube minhoto? Ou, então, devolver o Sporting ao grupo de candidatos que lutam pelo título? Em 2010/11, o antigo avançado portista concretizou tudo o que está à frente da primeira pergunta, deu as respostas certas em Braga, saiu na altura exacta e apostou num projecto arriscado, embora aliciante. À superfície, nos primeiros passos, uma seta a dizer "Rua sem saída"; aos poucos, contudo, Domingos serenou ânimos com exibições e resultados. Cada vez mais se esquece que a tendência começou a inverter-se em Paços de Ferreira quando os adeptos deixaram de gritar o insultuoso "Joguem à bola! Palhaços joguem à bola!" para apostarem no eufórico "E o Sporting é o nosso grande amor!" No entanto, ainda falta muito para que o desafio esteja ganho. E Domingos sabe disso.
Paulo Bento
Gilberto Madaíl entregou-lhe uma selecção nacional para a qual a chegada ao Europeu do próximo Verão parecia meta inatingível. Sem alternativa que não fosse ir vencendo cada jogo, em termos competitivos a equipa recuperou: confiança, auto-estima, capacidade desequilibradora. Antes do último jogo da fase de grupos, na Dinamarca, os problemas com Ricardo Carvalho e José Bosingwa criaram fissuras na estrutura e o colectivo voltou a estremecer. No playoff com a Bósnia, coesão, frieza e solidariedade ficaram espelhados até no modo como todos se uniram em torno de Carlos Martins e do problema de saúde do seu filho. Ninguém está acima do erro e esta campanha de Portugal ilustra-o na perfeição. Paulo Bento tem o mérito de saber como reprogramar uma equipa desorientada, mas vai ser preciso mais do que isso para garantir a paz na selecção.
Lionel Messi
É um jogador especial, um talento luminoso, uma inspiração para quem o rodeia, mas será o argentino o melhor de sempre? E Di Stéfano, Pelé, Cruijff, Maradona? A ânsia de ser o primeiro a dizê-lo ou escrevê-lo admite exageros de apreciação. Tal como acontece quando se afirma, sem considerar réplica, que o Barcelona de Guardiola é a melhor equipa de sempre. A Hungria dos anos 50, o Real Madrid das cinco Taças dos Campeões consecutivas, o Brasil campeão do Mundo em 1970, Ajax e Holanda dos anos seguintes, o Milan de Arrigo Sacchi que tinha Van Basten, Rijkaard, Gullit, mas também Baresi, Donadoni ou Maldini aí estão para alimentar a discussão. E Messi é o melhor do Mundo? Ao longo do ano, terá mais dias em que consegue sê-lo, mas convém não esquecer Ronaldo...
Cristiano Ronaldo
Não lhe perdoam os tiques de vedeta, confundindo o acessório com o essencial: nenhum jogador que marque 41 golos num campeonato, mesmo que um seja (mal) atribuído a Pepe, deve ser julgado, acima de tudo o resto, pelos gostos pessoais, por aquilo que veste, pelos carros que conduz ou porque tem uma, duas ou 20 casas de acordo com a conta bancária. O português pulverizou os máximos de Zarra e Hugo Sánchez, foi Bota de Ouro europeu pela segunda vez e nem isso chega para quem passa a vida a escrever que Ronaldo não deve preocupar-se em ser melhor do que Messi e, no fundo, exige-lhe isso mesmo. É inevitável que, em lados opostos de equipas com objectivos idênticos, Ronaldo e Messi formem uma só moeda, tal como José Mourinho e Pep Guardiola representam estilos, caminhos e propostas futebolísticas diversas. Na época passada, só a Taça do Rei interrompeu a hegemonia catalã que ofuscou uma temporada espectacular de Ronaldo. Não compreender isso torna qualquer crítica míope.
Dirk Nowitzki
Antes do lockout que ameaçou a temporada iniciada neste Natal, os Dallas Mavericks tiveram, finalmente, o seu tempo de triunfo na NBA e Nowitzki concretizou o sonho, deixando de ser só um estrangeiro da competição para garantir um lugar no coração dos adeptos e de quem gosta de basquetebol. Antes da final, Dallas impressionou com a facilidade na forma como se desembaraçou das vedetas dos Lakers. Na decisão, Dwyane Wade, LeBron James e Chris Bosh bem se bateram para que o título fosse até Miami, mas o alemão sabia que era então ou nunca e nem uma gripe de dimensão avassaladora lhe diminuiu as convicções. Ao título da NBA juntou o de jogador mais valioso da final (MVP) e, em definitivo, passou a ter o respeito que só se dedica a quem, mais do que jogar para vencer, joga como se fosse a última coisa que fizesse na vida.
Petra Kvitova
Aos 21 anos, a canhota checa representa uma aposta estimulante para o ténis feminino com um tipo de jogo, personalidade e características que, neste momento, a colocam no rumo certo para discutir o topo do ranking WTA. Ao contrário da número 1, Caroline Wozniacki, a tenista de Leste tem um título do Grand Slam (ganho este ano em Wimbledon) e fechou 2011 com o apetitoso triunfo no Masters feminino. "Tinha de correr riscos para ganhar", disse em Julho, depois de bater Maria Sharapova na relva britânica. E este é um dos aspectos mais atraentes do seu temperamento: a coragem. A Kvitova, como a qualquer jogador de elite, não basta ser consistente - é preciso ter ousadia e discernimento para aproveitar nos momentos certos. Da justa avaliação desses instantes também dependerá a evolução da sua carreira.
Novak Djokovic
Agora que Rafael Nadal espera ser menos previsível no próximo ano, uma das explicações para a brilhante (e extenuante) temporada do sérvio reside nesse capítulo: foi também por ter tornado o seu jogo imprevisível que Djokovic acumulou impressionante série de triunfos, ganhou três dos torneios do Grand Slam (só lhe escapou Roland Garros, território sagrado do maiorquino) e arrebatou ao espanhol a liderança do ranking. "Nole" transformou a força de vontade num imperativo categórico, treinou-se como nunca e, mais importante, ganhou dimensão no domínio do psicológico, passando a entrar nos courts como se já estivesse em vantagem, tal o controlo exercido sobre os rivais. Depois do US Open, porém, o corpo cobrou-lhe o preço do desgaste, enquanto Federer (soberbo no Masters de Londres) e Nadal (determinante na conquista da Taça Davis dos espanhóis frente à Argentina) deixavam pistas para aquilo que Djokovic poderá enfrentar a partir de Janeiro quando a Austrália for o cenário do primeiro confronto a sério.
Sébastien Loeb
Oito títulos seguidos no Mundial de ralis tornam o piloto da Alsácia numa lenda viva, mais parecendo que não existe sombra para o seu Citroën. Apesar da supremacia, este foi o ano em que Loeb enfrentou maiores problemas para se impor, desafiado de muito perto por Hirvonen e Ogier. O estatuto do francês não fica em risco com as mudanças já efectuadas, mas 2012 será outra boa oportunidade para perceber até onde vão os limites do talento de Loeb, cuja fonte parece inesgotável.
Sebastian Vettel
Quando se pensava que, depois de Michael Schumacher, a Fórmula 1 não voltaria a ser monótona por causa dos sucessos seguidos de um só piloto, outro alemão assegura que as surpresas terão de ficar para depois. Com o Red Bull sempre mais competitivo do que a concorrência, deixando à McLaren e à Ferrari os papéis secundários, Vettel assumiu a condição de mais jovem bicampeão do Mundo na modalidade e não deixou margem para qualquer tipo de discussão. Estratégia, capacidade de pilotagem, apoio técnico - com estes três argumentos nas suas mãos, os recordes foram caindo, avolumaram-se os triunfos e o desespero dos adversários, incapazes de responder à altura. Do pouco que se sabe sobre os novos carros, Vettel está ansioso: porque mal pode esperar para continuar a vencer ou por causa da eventual recuperação de Alonso, Hamilton e Button? É mais provável que se concretize a primeira ideia.
Casey Stoner
Num ano que ficará para a história com o traço da tragédia associado à morte do italiano Marco Simoncelli, acabou por ser Stoner a recuperar o título que lhe escapava desde 2007. Campeão no dia em que completou 26 anos e logo face ao seu público, no circuito australiano de Phillip Island, Casey simboliza persistência e bravura, paixão e espírito competitivo. Se o espanhol Jorge Lorenzo parecia, no começo da temporada, destinado a repetir o êxito, Stoner baralhou as contas e, corrida após corrida, foi estabelecendo a diferença dentro das pistas, afinal o lugar onde tudo se joga.
Alfred Hitchcock chamou-lhe "To catch a thief", a tradução portuguesa adaptou-o para "Ladrão de Casaca". Era o ano de 1955, Archibald Alexander Leach vivia o auge da carreira... "Quem?", pode questionar-se o leitor desprevenido. Trata-se de Cary Grant, um exemplo de elegância no Cinema, perseguido pela ligação homossexual com outro actor (Randolph Scott) que teria levado mesmo a própria Paramount a encontrar-lhe um casamento à pressa (antes de morrer, com 82 anos, seriam cinco). No filme de Hitchcock, com quem trabalhou em quatro películas (começou em 1941 com "Suspeita", continuou cinco anos depois em "Difamação" e terminaria em 1959 com "Intriga Internacional"), Grant é John Robie ou o "Gato", ex-ladrão de jóias que, em plena Riviera francesa, acaba enleado num caso de roubo a envolver uma rica viúva (a esplendorosa Grace Kelly) e tem de ajudar as autoridades a esclarecer a situação, pois o verdadeiro ladrão usa métodos que tornam Grant/Robie no principal suspeito.
Se há exemplo de elegância dentro dos courts, Roger Federer é o caso mais eloquente. Não apenas no jogo, mas no discurso - há sempre palavras elogiosas para os adversários nas inúmeras vitórias (são 70 em 100 finais), nunca falta desportivismo nos desaires (e até lágrimas, como na célebre final /maratona perdida ante Nadal na Austrália em 2009, quando ainda procurava igualar os 14 torneios do Grand Slam que eram recorde de Pete Sampras - entretanto, já chegou a 16). No Masters de Londres, prova em que passou a ser o tenista com mais triunfos (seis) e o mais velho a ganhar (fez 30 anos em Agosto), tornou a ser assim. "Não podia estar mais feliz, nem mais exausto, porque o Jo sugou todas as minhas energias", admitiu. "Fizeste uma grande época, ganhaste-me em Wimbledon, esta é a minha vingança em Londres. Terás mais oportunidades", disse, dirigindo-se a Jo-Wilfried Tsonga, a quem bateu pelo terceiro torneio consecutivo.
Rara mistura de classe, inteligência, requintes técnicos e uma invulgar capacidade física, Federer é o mais completo dos atletas que fizeram do ténis uma paixão mundial. Para trás está uma galeria de ilustres representantes que foram deixando marcas, mas não reuniram semelhante gama de argumentos. Jimmy Connors, Guillermo Vilas, Bjorn Borg, John McEnroe, Ivan Lendl, Boris Becker, Pete Sampras, Andre Agassi, Rafael Nadal, Novak Djokovic: nestes dez nomes estão concentradas algumas das melhores histórias da modalidade, momentos geniais, finais inesquecíveis, currículos invejáveis. Em vão: nenhum é melhor do que o suíço a quem até poderiam chamar ladrão de casaca ou gato pela elegância com que se apropria dos troféus, deixando a concorrência a anos-luz. Em relação a Cary Grant, porém, Federer sai a perder quando se percebe com quem contracena - de facto, Mirka Vavrinec está nos antípodas em relação a Grace Kelly. Ninguém é perfeito...
PS1: Falou-se muito e com pouco acerto antes e depois do Benfica-Sporting. Infelizmente, ainda há muita gente no futebol português que desconhece uma regra fulcral: o silêncio, muitas vezes, é de ouro. É sempre mau sinal se antes e depois de um desafio com a dimensão do derby as conversas giram à volta de caixas de segurança, incêndios, pré-histórias e castigos. Pior ainda quando o jogo teve tantos momentos interessantes e os temas de discussão ainda vêm dos dirigentes e não de Aimar, Wolfswinkel, Javi García, Carrillo, Artur ou Rui Patrício. De uma vez por todas: futebol é a beleza das jogadas, a sumptuosidade das movimentações dos jogadores em campo, a argúcia dos treinadores, a discrição dos árbitros.
PS2: Mesmo com exibições cinzentas e momentos titubeantes, o FC Porto chegou ao 50º jogo sem perder no campeonato. Mais do que escolher méritos deste ou daquele treinador, é importante ir directo ao assunto: não há acasos e, como disse Domingos Paciência num outro contexto, a sorte dá muito trabalho.
PS3: Ex-jogador de grande qualidade e com uma longa carreira no futebol inglês, Gary Speed, que era seleccionador galês, foi encontrado morto em casa aos 42 anos. Hugo Viana, que jogou ao seu lado e com ele conviveu na passagem pelo Newcastle, homenageou-o. Um exemplo de educação e respeito no futebol que muitos dirigentes deveriam aprender.
Presidente da Argentina entre 1892 e 1895, Luís Sáenz Peña proferiu uma frase que entrou na História, a propósito do seu país e do Brasil: "Tudo nos une, nada nos separa." A verdade é que, ao longo dos anos, muitas vezes têm sido mais fortes os sinais de rivalidade do que de união entre os dois maiores países da América do Sul. No fundo, uma relação semelhante à que existe entre FC Porto, Benfica e Sporting, unidos por traços de grandeza, vitórias e rico historial, mas separados pela rivalidade inerente a essa condição e pela impossibilidade de ganharem em simultâneo.
As jornadas que aí vêm vão clarificar estatutos neste campeonato: o Sp. Braga-Benfica do próximo domingo é um novo teste à equipa de Jorge Jesus, de regresso ao local onde perdeu pela última vez (0-1 na meia-final da Liga Europa), depois da aventura sem derrota no Dragão. E, se os bracarenses não parecem convincentes, os benfiquistas também têm passado por momentos susceptíveis de gerar dúvidas quanto à real consistência da equipa. Quando cedeu o empate em Barcelos, frente ao Gil Vicente, após vantagem de dois golos, o Benfica transmitia a ideia de ainda não formar uma grande equipa, apesar da qualidade individual dos seus jogadores. Quase três meses depois, o problema parece ser outro: de tão confiante no seu potencial, a equipa torna-se narcisista, deslumbra-se com as suas capacidades e fica convencida de que tudo está resolvido quando a discussão ainda permanece em aberto.
Depois de Braga, há-de surgir o Sporting que leva dez vitórias consecutivas após o desaire em Alvalade com o Marítimo, conjugando o rigor táctico holandês com a criatividade sul-americana e a perspicácia portuguesa. No banco, Domingos Paciência, o último técnico a impor-se a Jesus, está a ganhar desafios que impôs a si próprio: respeito dos adeptos e da crítica, controlo emocional dos jogadores, qualidade exibicional. E, na mesma jornada, os minhotos visitam o Dragão, onde os campeões nacionais vão ganhando, mas sem a exuberância da temporada passada. Em Janeiro vai chegar Danilo, um reforço de peso, mas o internacional brasileiro pode não ser suficiente para manter o título no Porto.
PS: Para quem não ficara convencido acerca da dimensão das conquistas de José Mourinho em Inglaterra, basta ver como André Villas-Boas está a sofrer para se bater pelos primeiros lugares. E a derrota com o Arsenal não teve ecos apenas no Dragão, também chegou a Madrid ou não fosse Villas-Boas um dos ex-adjuntos do treinador do Real.